Como a publicidade das apostas mudou no Brasil, dos cassinos aos patrocínios de camisa


A relação do Brasil com os jogos de azar mudou completamente ao longo das últimas décadas. Durante boa parte do século XX os cassinos físicos foram associados ao entretenimento de luxo e, posteriormente, proibidos no país, o avanço das plataformas digitais transformou novamente a maneira como os brasileiros entram em contato com as apostas. Hoje, as marcas estão presentes em comerciais, redes sociais, transmissões esportivas e, principalmente, nas camisas dos grandes clubes.

Essa transformação ganhou ainda mais força com a regulamentação das apostas de quota fixa. Fique por dentro e veja o que é sistema de apostas e consiga evoluir no jogo. O mercado passou a operar dentro de regras específicas e as empresas autorizadas passaram a investir pesadamente em publicidade e patrocínios. Em 2025, o setor de apostas esteve presente nos uniformes dos 20 clubes da Série A, segundo levantamento do IBOPE Repucom, mostrando o tamanho alcançado pelas marcas no futebol brasileiro.

Dos antigos cassinos ao crescimento das apostas online

Para entender a atual presença das apostas na publicidade brasileira, é preciso voltar algumas décadas. Os cassinos tiveram um período de grande destaque no país, especialmente durante a primeira metade do século XX. Eram associados a grandes hotéis, espetáculos e eventos sociais, recebendo artistas, empresários e personalidades.

Esse cenário mudou em 1946, quando os jogos de azar foram proibidos em estabelecimentos físicos no território nacional. Durante décadas, portanto, o setor permaneceu distante da publicidade convencional e dos grandes meios de comunicação.

A internet mudou essa realidade.

Com a expansão das plataformas digitais, o consumidor passou a ter acesso a diferentes modalidades de apostas diretamente pelo celular. O crescimento foi especialmente acelerado durante a década de 2020, quando o futebol se tornou um dos principais canais de divulgação das empresas.

A mudança pode ser percebida em diferentes frentes:
  • Publicidade em televisão e internet;
  • Anúncios durante transmissões esportivas;
  • Campanhas com influenciadores;
  • Patrocínios de clubes;
  • Presença nas camisas dos jogadores;
  • Ações promocionais ligadas a competições esportivas.
O que antes era um mercado pouco visível passou a fazer parte da rotina de quem acompanha futebol.

As bets encontraram no futebol o principal espaço de publicidade

A ligação entre apostas e futebol não aconteceu por acaso. O esporte oferece exatamente o tipo de ambiente que as empresas procuram: audiência elevada, acompanhamento frequente e uma enorme quantidade de eventos nos quais existem mercados de apostas.

Clubes, campeonatos e jogadores passaram a funcionar como importantes vitrines para as marcas.

O crescimento foi tão expressivo que, em 2025, todos os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro tinham alguma empresa de apostas associada ao uniforme. O levantamento do IBOPE Repucom apontou ainda que o setor ocupou o terceiro lugar entre os segmentos com maior presença nos uniformes, atrás apenas de setores como financeiro e imobiliário/construção.

O patrocínio de camisa passou a representar uma das formas mais valiosas de exposição.

Na prática, a marca deixa de aparecer apenas durante um comercial e passa a acompanhar o clube durante toda a temporada. Ela está presente em:
  • Jogos do Campeonato Brasileiro;
  • Competições continentais;
  • Entrevistas coletivas;
  • Fotografias dos jogadores;
  • Conteúdos nas redes sociais;
  • Programas esportivos;
  • Notícias publicadas pela imprensa.
Isso cria uma exposição constante e ajuda a transformar a marca em parte do cotidiano do torcedor.

O patrocínio também mudou o futebol brasileiro

A entrada das empresas de apostas trouxe uma nova fonte importante de receita para os clubes. Em um mercado no qual as equipes buscam constantemente novas formas de aumentar o faturamento, os contratos com as bets passaram a disputar os espaços mais valorizados dos uniformes.

O fenômeno atingiu especialmente os grandes clubes.

Em 2025, as empresas do setor estiveram presentes em todos os 20 clubes da Série A, enquanto 18 equipes tiveram marcas de apostas como patrocinadoras máster em algum momento da temporada. O movimento mostrou como o setor havia conquistado uma posição central no mercado de publicidade esportiva.

Mas o cenário começou a mudar em 2026.

Com a consolidação da regulamentação e a necessidade de adaptação das empresas às novas regras, o número de contratos de patrocínio máster com bets caiu. No início do Campeonato Brasileiro de 2026, 12 dos 20 clubes da Série A mantinham empresas de apostas nessa posição.

Isso não significa que as marcas desapareceram do futebol. Pelo contrário. O movimento indica uma transformação do mercado, com empresas mais estabelecidas, maior preocupação regulatória e uma seleção mais cuidadosa dos investimentos.

A publicidade das apostas ficou mais controlada

A expansão do setor também trouxe discussões sobre os limites da publicidade. A preocupação com o jogo problemático, a exposição de menores de idade e a forma como as apostas são apresentadas ao público fizeram com que o governo brasileiro aumentasse as exigências para a comunicação das empresas.

Em julho de 2026, novas regras ampliaram as exigências para a publicidade de apostas de quota fixa. Entre as mudanças está a obrigação de apresentar advertências sobre os riscos associados às apostas, como a possibilidade de dependência, perda de dinheiro e o fato de que aposta não deve ser tratada como investimento.

As novas normas também reforçaram a proteção de crianças e adolescentes e aumentaram a responsabilidade de empresas e agentes envolvidos na divulgação.

Essa mudança altera diretamente a maneira como o setor pode fazer publicidade. A comunicação precisa ser mais responsável e não pode apresentar a aposta como uma solução financeira ou uma forma garantida de ganhar dinheiro.

O desafio agora é equilibrar dois interesses diferentes: permitir que um mercado regulamentado divulgue seus serviços e, ao mesmo tempo, proteger consumidores de práticas publicitárias inadequadas.

O futuro da publicidade das apostas no Brasil

A tendência é que a publicidade das apostas continue ligada ao esporte, mas de uma maneira cada vez mais profissional e regulamentada.

O futebol continuará sendo um dos principais ambientes para as marcas porque oferece enorme capacidade de alcance. No entanto, a fase de crescimento acelerado e exposição indiscriminada parece estar dando lugar a um mercado mais seletivo.

As empresas deverão disputar propriedades que ofereçam maior retorno de marca, enquanto os clubes precisarão avaliar não apenas o valor financeiro dos contratos, mas também os riscos associados aos parceiros comerciais.

Ao mesmo tempo, novas formas de publicidade devem ganhar espaço, principalmente no ambiente digital. Conteúdo personalizado, redes sociais, transmissões esportivas e campanhas direcionadas podem se tornar ainda mais importantes do que simplesmente colocar uma marca no uniforme.

A história mostra uma transformação significativa: o setor saiu de um cenário em que os jogos de azar estavam praticamente afastados da publicidade tradicional e chegou a um momento em que empresas de apostas ocupam espaços nobres no futebol brasileiro.

Agora, a próxima etapa será descobrir como esse mercado conseguirá crescer dentro de regras cada vez mais rigorosas. O desafio não será apenas conquistar visibilidade, mas construir uma relação sustentável com torcedores, clubes e consumidores em um ambiente no qual responsabilidade e publicidade precisarão caminhar lado a lado.

Nenhum comentário